sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Processo iniciático

Nos últimos anos, na minha região, as casas de religiões africanistas vem disputando espaço, e, por conseguinte, a soberba de ostentar uma bela corrente, com número expressivo de médiuns provoca uma briga constante, que acaba refletindo na sociedade, gerando verdadeiros “macacos”, que pulam de galho em galho, andam de terreiro em terreiro sem propósito algum.
Analisando este comportamento, identificamos um mal enraizado que pode causar inúmeros danos. O adepto não sabe mais ser responsável, e cada vez menos eles “vestem a camisa” do terreiro. Mas por quê? Foi tentando responder esta pergunta que tiramos algumas conclusões. Vejamos:
Nas sociedades antigas, bem como as seitas e cultos de mistérios havia uma característica muito interessante que certamente deveria ser considerado, tanto na Quimbanda, como em qualquer outro segmento de origem: O processo iniciático.
Ocorre que hoje em dia esta muito fácil entrar e sair de um terreiro. Mesmo que tal fato seja questionado pelos zeladores, sabemos que não funciona assim. Qualquer pessoa que se sinta a vontade pode dar início numa corrente.
Em outra situação falava-se das “provas”, hoje praticamente extintas do processo de desenvolvimento pela violência a integridade física, e algumas vezes, moral. Contudo, ainda me refiro à iniciação como um método prático para o desenvolvimento, não apenas da mediunidade, mas do indivíduo como um todo.
A iniciação nas sociedades secretas tinha como fundamento básico: a Morte e Renascimento. Isto significa que ao iniciar-se, simbolicamente o indivíduo morria para uma vida e renasciapara outra. Sem considerar aspecto teatral, o que não passa de uma tolice, ainda assim o aparato mágico e cerimonial causava – e ainda causa – enorme impacto psicológico.
As cerimônias precediam de uma boa dose de “emoção”; o postulante era questionado inúmeras vezes se “realmente estava pronto” para seguir em frente; se estava disposto a “sofrer para aprender”. No dia – ou noite – da iniciação, vendavam-lhe os olhos e conduziam-no por corredores até o local, para que o mesmo “não soubesse” por onde estava caminhando.
A partir daí sucediam-se várias provas – e até torturas – onde o postulante era seguidamente questionado e forçado a prestar juramento de lealdade ao clã. Muito embora estes procedimentos possam ser considerados “arcaicos”, lembremo-nos de que na idade da ignorância, uma descoberta podia significar a morte de todos.
Não quero dizer, com isso, que devamos seguir os mesmos preceitos, mas o exemplo de que é possível desenvolver um forte sentimento de responsabilidade em nossos novos adeptos.
Quando decidi pela Quimbanda, meu zelador repetia sempre as mesmas palavras: Tenha certeza disso, não há mais volta! Hoje eu sei que aquelas palavras significavam Coragem. Claro que certas coisas não são possíveis de reverter. É como aprender a nadar; impossível “des-aprender”. Mas é necessária muita coragem pra se jogar em “lagos profundos”; e uma vez aberta a porta para aquele conhecimento, ele vai acompanhá-lo por toda a vida.

O que quero dizer, é que não basta um “amaci”, um cruzamento, uma imolação. Isso tudo ainda é pouco diante de uma sociedade sedenta e curiosa. Eles precisam de algo a mais para firmar um compromisso. É preciso abnegação, envolvimento, impacto, e, “escolhas”. 

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