sexta-feira, 14 de outubro de 2011

exú


EXU


As entidades da Quimbanda são ancestrais que tiveram ligação com o culto, em sua maioria pertencente a grupos familiares do séc. XIX. Alguns travaram relações de sangue com as culturas nativas, (ex: brancos que se relacionavam com negras ou índias). Estes passaram a ser chamados de Exu. Um equívoco lingüístico certamente, visto que Exu é a divindade Nagô. E foi por causa do seu arquétipo que acabou sendo relacionado às nossas entidades, “emprestado”, por assim dizer, o seu nome, pela característica de ser irreverente, debochado, desafiava a ordem e os dogmas da igreja.
Exu Rei - Tony Pres. Afroconesul
Hoje em dia, por causa da banalização provocada por práticas absurdas, não mais praticamos a cultura de divinizar nossos ancestrais. Muito se perdeu com a passagem do tempo; principalmente com a inserção da influencia européia cristã. Os catimbozeiros do nordeste explicam que os seus mestres se “encantaram” por causa de uma iniciação em vida que os levaram a integrar-se à natureza. Entretanto, essa tradição é uma herança indígena, que por costume faziam um tipo de ritual ao enterrar os seus mortos, sob as raízes de uma árvore, de modo que estes espiritualmente passassem a habitar o tronco da mesma. Esse procedimento “de encantamento” era uma forma de divinizar seus antepassados mais proeminentes, para que pudessem continuar presentes, acompanhando a vida e o cotidiano da tribo. 
No Catimbó nasceu muitas entidades que hoje conhecemos. Mas neste processo também houve a reinterpretação do mito Exu pelos umbandistas, que pelo fato de o Orixá africano ter sido “sincretizado” com o diabo, a associação deste com nossos ancestrais fez muita gente identificá-los como “espíritos maus”, vagabundos, bandidos, degradados que necessitavam de orientação para evoluir espiritualmente. Um tremendo equívoco, e também uma enorme falta de consciência ancestral. 
A ancestralidade é a chave para compreendermos o universo religioso e popular que se desenvolveu no Brasil. Precisamos voltar ao passado e compreender a miscigenação das raças e culturas que formaram a ancestralidade brasileira. Observando por esse ângulo fica mais fácil perceber que as nossas entidades não estão necessariamente vinculadas à mecanismos de evolução kármica; e sim a algo bem mais óbvio – a relação ancestral.
Como não perceber que existe uma forte relação entre médium e sua entidade? Em qualquer terreiro – não precisa ser Quimbanda. Observe a cumplicidade, o amor e respeito que existe; experimente falar mal da entidade do médium e veja o que acontece. É como falar da sua própria família. Qualquer pessoa tomará as dores pelo seu Guia Espiritual; e tal cumplicidade parte de ambos os lados. Uma entidade sempre defenderá seu médium, não importando a circunstância. Exatamente como um pai, uma mãe, irmão ou irmã. 
Não há nada mais interessante que esta ligação familiar, travada ao iniciarmos numa corrente mediúnica. Não os divinizamos por uma questão cultural do nosso tempo, mas as entidades de Quimbanda são grandes ancestrais dessa terra. Protetores que nos guiam nos conflitos da alma, prestando auxílio, orientando, ensinando, acompanhando a vida de perto. Mas também corrigem e repreendem quando deixamos a desejar. Logo, afirmar que estas entidades trabalham unicamente para fins materiais é um erro grosseiro, uma visão limitada do culto. 
Fazer parte de um corpo mediúnico, desenvolver, girar e se aprofundar, é atender um chamado. O chamado da alma que busca um reencontro. Uma grande prova de que os espíritos continuam participando da vida, do cotidiano e da família.

Nenhum comentário:

Postar um comentário